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Nem só despir
o silêncio dos muros
é liberdade
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Ser é não ser, eis a questão!
Mão
Tinta
Papel
No vazio intercalar
nasce
o poema
O vazio circundante
enche
o poeta
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Desidentidade
Do nada que fiz
sou feito
Em mim recordo
todas as recusas
(chamem-lhe gestos!...)
... outro que não eu
sou esse...
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Ofício de escrever
.
. A mão vacila
. ao conduzir
. a palavra
. sobre o papel
. tensa
. de desejo
.
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Canção do Bardo sobre a convocação do ser
parte oculta de todo o ser
o nome
tudo encerra e desventra
é por isso que amar
- o equivalente da linguagem
há muito ocultada -
é o poder de designar
vem que eu chamo
pelo teu nome
que aprendi a conhecer
só de ver o teu olhar
e pelos teus pés
vem comigo percorrer
o solo que eu junquei
de palavras
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Canção do Bardo sobre a proximidade do sobre-real
acariciado nos dedos suaves da brisa
embalado nos seios do mar
o planeta ardente
a embarcação solitária
no mar imenso e calmo
e vago
estremece
silêncio raivoso
sobre ela se abate
apegando-se ao ranger do madeirame
e no infinito
na solidão que endoidece
não há gritos de crianças
não há choros
não há esperanças
. e o deserto cresce!
aqui na areia
que a tarde arrefece
acrescento ao todo
a presença do olhar
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Canção do Bardo sobre a nostalgia da madrugada
na rocha
coberta de líquenes e musgos
nu deixo-me apresar
dos fios de prata
que escorrem do luar
com os dedos
no horizonte adormecido
onde galopa um cavalo vermelho
desenho ainda
as horas do encontro
no manto arremessado
irreverentemente sobre uns arbustos
espreguiça a loucura e a impaciência brinca com as gotas do orvalho
os olhos dela percorrem as estrelas
que inda se vêm penduradas
na montanha pr'além das árvores
o eco das palavras acariciadoras
ainda murmura sobre os músculos
desta carne que pouco a pouco
cedem à vontade
de adormecer
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Canção do Bardo sobre o desejo da vida
ah! não choreis
amigas minhas
talvez um dia?
quero acrescentar uma palavra só
a tudo o que já foi dito
quero apascentar os gestos
que escorrem dos meus dedos
quero dar vida
às visões que aderem
aos meus olhos
quero estar perto
se me distancio
quero padecer
e ser fonte
e jorrar alegria
quero regredir
e apascentar os gestos
que escorrem dos teus dedos
tua mão me desafia
quero regredir
e sonhar as visões
que se desprendem
dos teus olhos
- mesmo se o teu olhar
me arrepia
quero regredir e estar perto
daquela que de mim
se distancia
quero fazê-la regressar
à minha companhia
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