A morte anunciada de um blog, seguida de O testamento de um blogger
O Tremontelo secou. Fez o seu tempo e secou. O Sítio do Tremontelo foi um espaço construído com o corpo e com a palavra.
Lá, no lugar real, entre Santarém e o Cartaxo, feito a trabalho braçal, foi a conversão de um espaço bruto e inóspito num espaço habitável e aprazível. Acabou a obra, mas sabemos que a obra nunca se acaba: é no fim que começam todas as trabalheiras a sério.
Aqui, no espaço virtual, a crónica e o comentário edificaram um recinto de lazer e convívio onde muitos experimentamos os prazeres de ler e escrever e de apreciar imagens.
Entre os dois mundos estabeleceu-se um corredor mitopoiético onde se cruzaram seres humanos, animais e entes de fábula.
Os seus restos mortais ficam em exposição por tempo indeterminado.
O cronista faz saber que:
1. Tudo o que ficou escrito teve a duração da palavra. São sons que partiram daqui e se perderam nos confins do nosso universo físico.
2. Significações, se alguma foi criada, misturaram-se no composto do meu jardim. São flores que irão renascer na próxima Primavera se não forem consumidas pela geada.
3. Sentimentos e ressentimentos, se foram despertados, deverão regressar ao adormecimento sempreterno. Não convindo à sua natureza viver no passado, resta-lhes o olvídio.
4. Ideias, teorias, se as houve, deverão continuar a mente de quem as gerou até à expiação completa dos seus pecados.
5. Fotografias são espólio cultural e propriedade da família do autor.
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A morte súbita dos blogs
Talvez seja um pouco desajeitado nesta coisa de blogs. Vim para aqui há um ano e tal porque uma grande amiga me avisou que tinha iniciado um e me convidou a lê-lo. Depois de uns comentários que fizera aos seus textos, iniciei o meu também. Deu-me tanto prazer produzir e postar textos próprios como comentar textos alheios. Passado pouco tempo a minha amiga deixou a caneta no tinteiro e o blog começou a aparecer com a cor amarelada das páginas virgens.
É certo que o tempo é um recurso escasso e alimentar blogs nem aparece sequer na pirâmide das necessidades de Maslow. Há quem não tenha tempo e deixe de aparecer: o blog fica parado, não de um dia para o outro, mas de um dia para não se sabe quando.
Noutros casos, verifico a diminuição na cadência das postagens. À postagem dia a dia sucede a postagem semana a semana, mês a mês, e, depois, sabe-se lá. Acontece isto com os mais novos que começam com um grande entusiasmo e acabam sem pedalada. Percebe-se. Outros valores, claro...
Há casos de ficar atónito. Uma amiga perdeu o blog assim de repente. Isso mesmo, perdeu-o, desapareceu, kaput! Soube isso por portas travessas.
Outros têm morte anunciada. Como sou mesmo muito distraído, não me dou conta dos anúncios. Venho sempre a bater com o nariz na notícia necrológica.
Aconteceu isso agora com o blog de uma amiga virtual com que me cruzava no mister mútuo do comentar.
Fiquei chocado. Habituamo-nos a certas presenças que se intensificam na sua ausência...
Num mundo sem net ou telemóveis, digamos nos anos sessenta, uma pessoa enganava-se ao discar um número no telefone (só havia fixos, para quem não sabe). A pessoa do lado de lá, se tinha o tempo, a simpatia e a coragem necessárias, atendia, gerava-se uma corrente de comunicação tão agradável que se repetia no dia seguinte. Às tantas era um hábito.
Suponhamos, então, que a pessoa deixava de corresponder à chamada. Que lhe teria acontecido? Não havia maneira de saber. Repetiam-se as chamadas até se instalar a desesperança.
O outro era a pessoa desaparecida. Saint-Ex refere-se a isto, creio que no Vol de Nuit, quando sobrevoava na sua rota algumas casas sempre iluminadas e reporta-nos como isso lhe dava uma sensação de haver vida lá em baixo. E a dor e intrigação que causava ver certo dia essas luzes apagadas. O que as haveria extinto? É o que não se podia saber: as pessoas eram-lhe dadas só pelos sinais da sua presença.
Há cada vez mais blogs com a luz apagada. Como sanar a dor da separação. E como interpelar os que partiram para lhes dizermos ainda o que não lhes dissemos e que quereríamos dizer ainda?
Eu cá fico-me na minha: Talvez seja um pouco desajeitado nesta coisa de blogs.
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