Crónicas do Juvenal: os macacos
Dada a estadia inopinada em Lisboa, que irá prolongar-se durante este fim-de-semana, aproveitei para ir ontem ao CTCFG. É que viver na imensidão do Ribatejo, entre o Bairro e a Lezíria, o tinto e o que já foi transparente, as vacarias domésticas e os toiros ao ar livre, a proximidade da A1 vertiginosa e cosmopolita e a do Tejo multissecular e ruminante, comer com os olhos até perder de vista as culturas de girassol, tomate ou melão, é coisa que sossega e tranquiliza o velho guerreiro cansado de guerra e ansioso pela áurea mediocridade. Mas tudo tem o seu tempo e o tédio lá faz o seu retorno quando a coisa parece correr pelo melhor. Por outro lado, se é que a vida tem lados, há alturas, confesso, que não estou mais para aturar a presença pesada e colada do Juvenal, bom amigo desde o princípio do mundo, que é desde que foi meu impedido na tropa e que uma mina o soprou uns bons metros para cima das copas das árvores da mata do Cassai, lhe desfez o andar regular, lhe emprestou a actual silhueta antropóide e lhe baralhou um bocado as ideias, tal foi a açorda em que lhe ficaram os miolos dentro daquele crânio ossudo e teimoso. Aturar a velha Odete, sempre com as mãos por debaixo do avental a adensar o ventre já de si proeminente, a olhar-me com ar complacente e um sorriso de Mona Lisa, como se eu fosse o filho que não teve, dotado de talentos colossais, um génio mesmo, mesmo que sem provas dadas, a vigiar a minha saúde, “tenha cuidado, senhor doutor, está um pisco, tem que se alimentar melhor, assim não chega à Páscoa” … ufa!... Lá lhe respondo: “Para a matança, Odete?”, ao que ela se ri, mostrando generosamente as gengivas desdentadas, “ai não tem juizinho nenhum, precisava era de arranjar uma mulher” deixando em suspenso e vago mistério a razão por que haveria eu de precisar de mulher, que para gente de lei não era precisa explicação.
Andava para aí sem saber ao certo o que fazer na grande cidade. Lisboa só tem beleza quando nos afastamos para o alto das suas colinas. Cá em baixo é uma cidade de cenário para filmes neo-realistas, cheia de lixo e vazia de pessoas. Vi por acaso num cartaz e decidi ir lá espreitar: passava no Centro de Treinamento para a Cidadania e a Felicidade Globais uma sessão de macacos a copular. Fui à FNAC comprar os bilhetes e demorei-me a ver as novidades editoriais. O que está à venda representa bem a sociedade em que vivemos. Portanto, tudo continua na mesma, tudo continua bem. Lá trouxe uma resma de livros, de todas as categorias da arte e do saber, cujo peso se somou aos dos dois pastéis de nata que tinham sido o meu almoço acompanhados de uma bica.
A parte nova da cidade parece uma boca completamente desvitalizada, restando-lhe poucos vestígios daquilo que a pôs, quando jovem e bela, em exposição internacional. Está um sítio sem graça, difícil de circular e de estacionar. Lá fui ao espectáculo.
Os animalejos são trazidos à arena por um treinador do circo. Um cientista desempregado, que o panfleto diz ser doutorado pela faculdade de ciências da universidade de Lisboa, faz a apresentação do número. Explica detalhadamente, a modos de intróito, a anatomia e a fisiologia do coito dos bichos devidamente fundamentadas na sua história evolutiva e nas particularidades do meio em que a espécie se desenvolveu. A plateia aplaude fortemente o primeiro casal de primatas que vem junto do público fazer amor. De acordo com os princípios do reforço positivo, o treinador transporta um cesto com cachos de bananas para distribuir pelos actores em instantes rigorosamente controlados da sua actuação.
Os actores apresentam-se impecavelmente vestidos. Ele, de fato antracite, camisa azul eléctrico e gravata de seda salmão berrante, fica com o ar distinto de um consultor de gestão de uma multinacional das telecomunicações, distinguido com a excelência do MBA tirado numa universidade agnóstica da Opus Nostra. Ela é simplesmente indescritível: toda anca meneante, porte de princesa de contos de fadas, vem vestida como a Branca de Neve, encarnada por uma jovem emigrante portuguesa na Eurodisney.
O acto decorreu de acordo com os princípios da natureza. Os números seguintes repetiram o enredo dos anteriores, não fosse a algum espectador menos atento falhar-lhe algum pormenor importante.
Voltei ao hotel regressando a pé parte do caminho. Doía-me não sei o quê. Não era no meu corpo. Era algures no universo imenso, creio que lá no sítio onde rareiam as estrelas.
Etiquetas: Juvenal
Crónicas do Juvenal: os putos.
Ao lado da nossa cerca vizinhavam-nos os Molengas, casal da melhor gema local e de longo pedigree rural, prova eram as bochechas vermelhuscas, atestado inequívoco de «homo taganus» conservado até à modernidade em vinha d'alhos. Boa gente, mas de catadura pouco fácil, sempre a desconfiar dos estranhos metediços que nós éramos.
Agarrados à terra, vigiavam amiúde a verdadeira localização dos marcos, não fôssemos nós, durante a noite, quais soldados nas trincheiras, arrecadar mais meio metro quadrado de terreno barrento. E tínhamos também aquele jeito amaneirado de dizer as coisas, em que não confiavam, de gente da cidade com estudos e sem calos nas mãos - porque gente de bem moureja de sol a sol e pega os bois pelos cornos.
Vem ao caso que os Molengas tinham três filhos endiabrados, de oito, dez e doze anos. Trepar a uma árvore, saltar muros ou fisgar os gatos eram traquinices inocentes comparadas com as diabruras de que eles eram capazes. Uma coisa é aquela alteração de comportamento que é comum nos rapazes de todas as idades do mundo e de todas as terras, outra coisa era a inventividade daquelas almas penadas capazes de atazanar um santo.
A principal habilidade dos diabretes era molestar os seres humanos com terríveis cantilenas e melopeias, repetidas a esmo e sem termo à vista, a modos como encantamento e sortilégios malévolos, graçolas mesmo endemoninhadas. A vítima era criteriosamente escolhida em função de uma suposta menos valia intelectual ou educacional, tendo uma base real devidamente testada e atestada, ou que assim o julgassem os mariolas. Alvo predilecto era o Juvenal, o bom do Juvenal. A Odete bem tentava espantar aqueles galarotes espraiando o braço no horizonte e dizendo "xô". Mas eles mais se riam e provocavam o Juvenal com o seu grito de guerra predileto: "Ó Juvenal, lê o jornal".
O Juvenal investia atrás deles com o cabo do sacho em riste mordiscando um "ai, seus malandros, se os apanho!". E eles desapareciam num ai para logo se colarem à sombra do Juvenal quando este voltava costas. "Ó Juvenal, lê o jornal".
Um dia o garoto do meio apareceu a boiar todo inchado no fundo de um poço. Segurava pela mão o rabo de um gato, também todo inchado. Houve muita falação lá no lugar mas a coisa não passou disso. A terra estava em peso no velório na casa mortuária. Também lá estivemos e o bom do Juvenal apresentava o humor de quem lhe tivesse morrido o último elemento da família.
Sentado numa incómoda cadeira de pau, muito imprópria para o seu corpo, o Juvenal olhava para o rosto cerúlio do petiz e abanava a cabeça como que a dizer que não. Depois mirava a gazeta local aberta na página do obituário parecendo comparar com a fotografia a cara do morto. Eu olhava para o olhar do Juvenal e seguia os seus movimentos a tentar perceber-lhe as secretas ideações.
Às tantas pareceu-me que o puto lhe piscara um olho. Tentei afastar por despropositada tal ideia, considerando que deveria deitar-me mais cedo, não adormecer a ver televisão, diminuir os púcaros de cafeína, deixar de trabalhar, fugir dos fumadores, fazer qualquer coisa que restabelecesse o meu estado de espírito e me devolvesse a sanidade.
Voltei a concentrar-me no puto e notei que, agora, os lábios mexiam. Mobilizei todos os recursos atencionais para interpretar aqueles movimentos e pareceu-me que diziam ininterruptamete:"Ó Juvenal, lê o jornal".
ver
aqui.
Etiquetas: Juvenal
Crónicas do Juvenal. As gajas.
"Gajas", terei ouvido bem?
Sim, "gajas!", troava uma voz lá fora. E, após as palavras, ouviu-se o tropel de passadas largas, pesadas e toscas embrulhadas na poeira do quintal. Entrou, de rompante e sem cerimónia, pela cozinha adentro. Era o Juvenal, vermelhão e a escorrer suor. Tão baixote e barrigudo que se assemelhava a um cantil da tropa.
"Estão a nascer gajas na horta", dizia e repetia sem fôlego o Juvenal. "Anda ver, tens gajas no quintal, aqui mesmo ao sair da porta".
Foram estas as frases, ou que retive de lembrança, ou que teria mesmo reparado no meu atelier do verbo, por tão estropiadas as ter apanhado no meio daquele enovelado palavrear. Tinha que ir ver.
Segui o Juvenal até à horta. Afinal, sempre era verdade, seguramente o testemunhavam os meus olhos: havia para aí uma meia dúzia de gajas pequeninas: duas ou três cabeças a brotar da terra, duas outras já com rebento de folha no topo da haste fina.
O Juvenal saltitava por cima dos canteiros, hesitando no arremedo entre o King Kong e o Quasímodo. Temi o pior, antevendo as horrorosas botifarras de elástico a abaterem-se sobre as frágeis gajas. Mas não, graças aos céus. Quando na trajectória do seu voo picado se adivinhava o impacte derradeiro, aquele desajeitamento nato de trangalhadanças desviava-lhe os pernis, que iam cair, como que conduzidos por serafins e querubins, borda fora dos canteiros.
“Afinal, sempre acreditas?” questionava-me o Juvenal. Sim, disse-lhe que tinha razão, havia gajas por todo o lado. O ano prometia e rezava por que tivessem passado já as últimas geadas, não caísse granizo ou que não fosse impiedosa a canícula.
A boa Odete olhava-nos encostada ao umbral da porta da cozinha, acenando a cabeça como quem dissesse “ai estes dois!”. Quando me aproximei, disse-me com um severo ar recriminatório: “O sô doutor ainda vai na conversa desse desmiolado”.
Era como se pensasse de si para si: “homens!”.
ver
aqui.
Etiquetas: Juvenal