30 de maio de 2007

Crónicas do Juvenal. As gajas.

"Gajas", terei ouvido bem?

Sim, "gajas!", troava uma voz lá fora. E, após as palavras, ouviu-se o tropel de passadas largas, pesadas e toscas embrulhadas na poeira do quintal. Entrou, de rompante e sem cerimónia, pela cozinha adentro. Era o Juvenal, vermelhão e a escorrer suor. Tão baixote e barrigudo que se assemelhava a um cantil da tropa.

"Estão a nascer gajas na horta", dizia e repetia sem fôlego o Juvenal. "Anda ver, tens gajas no quintal, aqui mesmo ao sair da porta".

Foram estas as frases, ou que retive de lembrança, ou que teria mesmo reparado no meu atelier do verbo, por tão estropiadas as ter apanhado no meio daquele enovelado palavrear. Tinha que ir ver.

Segui o Juvenal até à horta. Afinal, sempre era verdade, seguramente o testemunhavam os meus olhos: havia para aí uma meia dúzia de gajas pequeninas: duas ou três cabeças a brotar da terra, duas outras já com rebento de folha no topo da haste fina.

O Juvenal saltitava por cima dos canteiros, hesitando no arremedo entre o King Kong e o Quasímodo. Temi o pior, antevendo as horrorosas botifarras de elástico a abaterem-se sobre as frágeis gajas. Mas não, graças aos céus. Quando na trajectória do seu voo picado se adivinhava o impacte derradeiro, aquele desajeitamento nato de trangalhadanças desviava-lhe os pernis, que iam cair, como que conduzidos por serafins e querubins, borda fora dos canteiros.

“Afinal, sempre acreditas?” questionava-me o Juvenal. Sim, disse-lhe que tinha razão, havia gajas por todo o lado. O ano prometia e rezava por que tivessem passado já as últimas geadas, não caísse granizo ou que não fosse impiedosa a canícula.

A boa Odete olhava-nos encostada ao umbral da porta da cozinha, acenando a cabeça como quem dissesse “ai estes dois!”. Quando me aproximei, disse-me com um severo ar recriminatório: “O sô doutor ainda vai na conversa desse desmiolado”.

Era como se pensasse de si para si: “homens!”.





ver aqui.

Etiquetas:

5 Comentários:

At 30/05/07, 11:02, Blogger Teresa Durães comentou...

Gajas= botões de flôr ou algo assim? :)

"Ai estes homens!"

bom dia

 
At 30/05/07, 12:18, Blogger Perdido comentou...

Não sou, botanicamente falando, um especialista, mas creio que posso sugerir alguns atributos diferenciadores e cuidados no seu cultivo.

Na fase de crescimento, dada a sua extrema delicadeza e sensibilidade, merecem mil cuidados ; há que proteger, alimentar, arejar, mimar. Assim, não terão problemas de crescimento, amadurecendo saudavelmente.

Na fase da reprodução, começam a resplandecer, abrindo esplendorosos botões, um a um, cada mês lunar. Fecundado, o que nem sempre acontece, cada botão origina uma fascinante flor radiada (daí o nome "caia radiata viridens"), com pétalas multicolores e um pistilo odorífero. As flores não fecundadas murcham vertendo a sua seiva directamente sobre o húmus o que deu origem à lenda popular da "Senhora lacrimosa".

Na passagem do tempo tornam-se inférteis, mas a sua extensa folhagem verde torna-as ainda mais atraentes, quer pela imponência do seu porte, a variedade das suas tonalidades, o ar solene, atitude sóbria e prudente, o aconchego da sua sombra.

Como disse, é uma descrição muito por alto e falha de pormenores. Confesso que não sou daqueles que se acham especialista. O meu conhecimento é apenas convivial. Mas uma coisa posso eu garantir: gosto muito de gajas.

 
At 31/05/07, 01:06, Blogger mafalda comentou...

Maravilhoso. Estou, ainda, em estado de choque por ter acabado de descobrir este blogue. Não imaginava que alguém pudesse escrever assim: imaginação, ironia, graça, tudo num traçado surrealista, dificilmente imaginável e com uma linguagem escorreita, numa escrita perfeita, como se de um tratado de filosofia se tratasse.
Não te quero perder. Perdido!!!
Um beijo de alegria (a minha, claro!)

 
At 31/05/07, 13:22, Blogger maria carvalhosa comentou...

Há pouco, numa visita ao blogue da Mafalda, "Vento Agreste", li o seu comentário que me deixou deveras impressionada pela análise crítica efectuada aos escritos daquela jovem. De lá, vim directamente para o seu espaço, que desconhecia inteiramente e, mais uma vez, fiquei surpreendida de forma muito positiva com o que por aqui encontrei. Como é que um blogue como o seu passa despercebido a todo um universo de gente que neste círculo escreve e comenta?

Pelo meu lado, se não tiver nada contra, vou desde já adicioná-lo aos espaços que visito com frequência e, sem exageros, acredito que passará a ser um dos blogues onde permanecerei mais tempo e que frequentarei com maior assiduidade.

A partir de hoje, a sua escrita ganhou mais uma admiradora e, pode crer, tudo farei para que seja conhecida por outros amigos que admiro e que, estou segura, saberão apreciá-la devidamente, como merece. Não é que precise dos meus favores, os meus amigos é que não fazem ideia do que têm estado a perder ao ignorar a sua existência... :)

Aceite um abraço.

 
At 31/05/07, 16:43, Blogger Clara Hall comentou...

Olá

Passo só para agradecer os comentários nos Frémitos.

Os textos por aqui são desafios muito interessantes. Volto. Quando puder e se puder.

Muito obrigada.

:)

 

Enviar um comentário

<< Página inicial