1 de junho de 2007

Crónicas do Juvenal: os putos.

Ao lado da nossa cerca vizinhavam-nos os Molengas, casal da melhor gema local e de longo pedigree rural, prova eram as bochechas vermelhuscas, atestado inequívoco de «homo taganus» conservado até à modernidade em vinha d'alhos. Boa gente, mas de catadura pouco fácil, sempre a desconfiar dos estranhos metediços que nós éramos.

Agarrados à terra, vigiavam amiúde a verdadeira localização dos marcos, não fôssemos nós, durante a noite, quais soldados nas trincheiras, arrecadar mais meio metro quadrado de terreno barrento. E tínhamos também aquele jeito amaneirado de dizer as coisas, em que não confiavam, de gente da cidade com estudos e sem calos nas mãos - porque gente de bem moureja de sol a sol e pega os bois pelos cornos.

Vem ao caso que os Molengas tinham três filhos endiabrados, de oito, dez e doze anos. Trepar a uma árvore, saltar muros ou fisgar os gatos eram traquinices inocentes comparadas com as diabruras de que eles eram capazes. Uma coisa é aquela alteração de comportamento que é comum nos rapazes de todas as idades do mundo e de todas as terras, outra coisa era a inventividade daquelas almas penadas capazes de atazanar um santo.

A principal habilidade dos diabretes era molestar os seres humanos com terríveis cantilenas e melopeias, repetidas a esmo e sem termo à vista, a modos como encantamento e sortilégios malévolos, graçolas mesmo endemoninhadas. A vítima era criteriosamente escolhida em função de uma suposta menos valia intelectual ou educacional, tendo uma base real devidamente testada e atestada, ou que assim o julgassem os mariolas. Alvo predilecto era o Juvenal, o bom do Juvenal. A Odete bem tentava espantar aqueles galarotes espraiando o braço no horizonte e dizendo "xô". Mas eles mais se riam e provocavam o Juvenal com o seu grito de guerra predileto: "Ó Juvenal, lê o jornal".

O Juvenal investia atrás deles com o cabo do sacho em riste mordiscando um "ai, seus malandros, se os apanho!". E eles desapareciam num ai para logo se colarem à sombra do Juvenal quando este voltava costas. "Ó Juvenal, lê o jornal".

Um dia o garoto do meio apareceu a boiar todo inchado no fundo de um poço. Segurava pela mão o rabo de um gato, também todo inchado. Houve muita falação lá no lugar mas a coisa não passou disso. A terra estava em peso no velório na casa mortuária. Também lá estivemos e o bom do Juvenal apresentava o humor de quem lhe tivesse morrido o último elemento da família.

Sentado numa incómoda cadeira de pau, muito imprópria para o seu corpo, o Juvenal olhava para o rosto cerúlio do petiz e abanava a cabeça como que a dizer que não. Depois mirava a gazeta local aberta na página do obituário parecendo comparar com a fotografia a cara do morto. Eu olhava para o olhar do Juvenal e seguia os seus movimentos a tentar perceber-lhe as secretas ideações.

Às tantas pareceu-me que o puto lhe piscara um olho. Tentei afastar por despropositada tal ideia, considerando que deveria deitar-me mais cedo, não adormecer a ver televisão, diminuir os púcaros de cafeína, deixar de trabalhar, fugir dos fumadores, fazer qualquer coisa que restabelecesse o meu estado de espírito e me devolvesse a sanidade.

Voltei a concentrar-me no puto e notei que, agora, os lábios mexiam. Mobilizei todos os recursos atencionais para interpretar aqueles movimentos e pareceu-me que diziam ininterruptamete:"Ó Juvenal, lê o jornal".



ver aqui.

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3 Comentários:

At 01/06/07, 11:13, Blogger Teresa Durães comentou...

:) gostei imenso! No tal norte, embora neste blog seja proibido divir o país eheheheh os putos são a canalhada ou canalha; apesar de não acreditar o norte é o norte. O Minho nada tem a ver com o resto do país. Mas no Minho não se perde a sanidade e sabe-se que o puto diria "Juvenal, lê o jornal". Apesar de extremamente católico o paganismo está fortemente enraizado.

Conheci um farmacêutico que levou a bruxa à farmácia porque a rede dos computadores estava sempre a avariar. a partir desse dia nunca mais deu problemas. e esta, ãh? :)

(por isso se monda ou se ceifa; engaço ou ancinho; canhota/ ou toro de lenha)

... e não são apenas os regionalismos...

Pode linkar o Voando se quiser.
Se sou Veg? Estranhei a pergunta! Sou vegetariana (ultimamente dei umas 'facadas') mas não pela defesa dos animais porque senão teria de não comer plantas - não distingo os reinos.

bom dia

 
At 01/06/07, 16:11, Blogger maria carvalhosa comentou...

Olá... ( não vou chamar-te tremontelo, asseguro-te que não. Inventa outro nome qualquer - nome de gente, de preferência - senão invento eu),

Além de perdido, e muito mais que me coíbo de enumerar neste momento, por desconhecimento acentuado da tua pessoa e evidente ausência de referências (por enquanto) que me permitam fundamentar a listagem de atributos, tu és, verdadeiramente, e disto tenho a certeza, DIVERTIDO.

O que eu me ri com o teu comentário no meu blogue... e agora com esta história do Juvenal mais a endemoninhada da criancinha que apareceu morta no poço com um gato!

Nem todos os dias são de grande alegria... para todos, julgo eu, mas no meu caso particular (que é o único sobre o qual estou devidamente autorizada a pronunciar-me), há alguns mesmo cinzentos, enfarruscados, por vezes até a puxar para o negro. Não que seja negro, negro, mas para aí um "antracite" ou coisa que o valha. E agora, prepara-te para a reafirmação da minha declaração de amor à primeira leitura: momento alegre foi aquele em que li o que tinhas escrito no espaço da Mafalda e depois fui espreitar o teu...; outro momento mais do que alegre, hilariante e de genuína boa disposição foi o que comecei por mencionar nesta missiva. Conclusão: tu fazes-me bem! Sinto-me uma pessoa descontraída e "sem males maiores" quando estou a ler os teus escritos e, mesmo depois, continuo com um sorriso estampado de orelha a orelha durante largo tempo e, de quando em vez, dou por mim a rir só porque me lembrei de alguma das tuas ideices (é assim que dizes? se não for, há-de ser parecido e para o caso tanto dá, porque percebeste o que quis dizer).

E agora, que estou com uma disposição acima da média, posso retomar o trabalho afincadamente, sem nunca largar o sorriso com as dentolas arreganhadas, até que alguém me pergunte: "mas a menina é mesmo tonta ou isso é uma crise passageira?" ;)

Beijinhos, amigo... (?) - arranja-me o raio do nome depressa!!!

 
At 01/06/07, 19:54, Blogger maria carvalhosa comentou...

Olá Zé,

Agora que fizeste o "strip" (e o referes ainda por cima no post do meu sítio onde está o poema da minha tia octogenária) já não posso afirmar, pelo menos com a mesma convicção, que não existe qualquer matéria substancial em que possa basear-me àcerca da tua pessoa.
A propósito, reparei que, não só afixaste no frontespício do tremontelo alguma informação a teu respeito como, no perfil, acrecentaste umas coisitas. Parece-me bem! Pelo menos imagino que sei "um pouquinho" da pessoa com quem estou a dialogar.
Da mesma forma que não gosto de me dirigir a alguém sem lhe atribuir um nome. Lembrei-me de "Zé" (pouco me importa que seja fictício). Se não gostares da escolha, trato-te por Perdido. É isso que queres? se for, que seja! Tremontelo é que não!!!

Beijinhos e bom fim-de-semana
(desta que se assina...) ahahahahahaha

 

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