31 de março de 2008

De como me apossei de uma máquina de costura.

Recebi como herança da minha mãe uma máquina de costura impregnada de tempo. Nada percebo de máquinas de costura, mas afeiçoei-me fulminantemente ao objecto. Peguei nela, meti-a no carro, com a ajuda de um vizinho, pois é muito pesada, e trouxe-a para o Sítio do Tremontelo.

A primeira abordagem ao objecto foi declaradamente fácil: reparei o móvel que a suporta como se de um móvel vulgar antigo se tratasse. Depois, o busílis foi descobrir como se abria o tampo do móvel e trazer a máquina cá para cima. Realizada esta proeza tratou-se de a pôr a trabalhar. Lembrava-me, mais pela cadência sonora do que por qualquer estímulo visual, que era preciso dar ao pedal para a pôr a trabalhar. À primeira tentativa não ocorreu nada para além do simples baloiçar do pedal. Inspeccionei a corrente e, verificando que estava fora das guias respectivas, reconduzi-a ao lugar correcto havendo verificado também se tinha a tensão apropriada. Funcionou. Ao menos, havia lá umas coisas que se puseram a mexer.

A máquina apresenta uma anatomia composta de três partes (“Gallia est omnis divisa in partes tres”, não poderia deixar de me ocorrer!): uma base bojuda, à direita, que assenta directamente no móvel; um corpo fusiforme cheio de orifícios que se alonga da direita para a esquerda para terminar na cabeça, a parte que é efectiva na costura. Em termos gerais, e apesar das suas reduzidas dimensões, parece, a considerar o peso metálico, a graça dos contornos, o cromatismo negro e doirado, a locomotiva de um comboio antigo.

Para quem tem como única experiência pregar uns botões ou remendar as bainhas de umas calças velhas afectas à agricultura, a inspecção visual não é de grande auxílio para compreender o seu modo de uso ou a finalidade das suas partes. Já a inspecção táctil das suas formas sedutoramente gráceis, femininas e reluzentes (como a sereia de Copenhaga transmutada em estatueta de bronze) proporciona outras compreensões que a metamorfoseiam de lugar de trabalho em lugar de prazer. Foi essa a razão que me deu alento para continuar a investigar e a aprofundar todos os mistérios daquela esfinge de ferro.

Estabelecera há uns tempos com a minha amável esposa uma rotina segura de telefonemas que nos permite, estando eu em Santarém, ela em Lisboa, um fluxo constante de comunicação em que partilhamos informação, pedidos, afectos e saudades. De lá, peço-lhe que me diga como vai estar o tempo em Santarém nos próximos dias, segundo as previsões do weather.com; ela, que eu lhe traga à volta um raminho de erva cidreira, tomilho, sálvia, ou a caixa de ferramentas para instalar a última aquisição no IKEA. Coisas assim, compreendem? Bem! Numa dessas ocasiões pedi-lhe que fosse à net à procura de um manual de uma Singer com determinadas características. Lá se desenvencilhou com eficácia e, passado pouco tempo, recebi por e-mail um manual da Singer razoavelmente aplicável ao objecto da minha estima.

Aquela noite foi passada em branco, adivinhem com quem.

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19 de junho de 2007

O regresso do tremontelo

Depois da colossal asneirada de querer transplantar o tomilho para o jardim em frente da casa, que deu em retumbante insucesso com a morte do frondoso arbusto, lá me apareceu um novo rebento, o que me diz que a coisa não está morta de todo. Tomilho limonado tenho lá disso aos montes. Tomilho ao montes, a rimar com alecrim aos montes, alfazema aos montes, sálvia e outras ervas aromáticas, tudo aos montes. Tomilho é que, enfim! ...

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