20 de julho de 2011

Cartas de Verão

Tenho uma mania que me vem da infância: gosto de cartas do correio. Não daquelas de obrigação, que se manda a intervalos regulares para as pessoas certas, que nos esperam nos lugares certos ou nos recetáculos certos, não! São as que nos fazem subir todos os dias a rua a esperar o carteiro e alimentam aquela incerta esperança se hoje alguma coisa para mim. O carteiro é o incontornável da esperança e da conformação. A gente sempre se conforma porque amanhã há outros dias, tem sido sempre assim. E o carteiro tem a sabedoria que recebe e distribui da mesma forma como recebe e distribui cartas. É a sabedoria da atenção aos sentimentos. Mas o carteiro já há muito tempo que não vem: foi tragado pela tecnologia do correio eletrónico.

Hoje a espera - a que felizmente ainda há - deve-se às fragilidades da tecnologia: tempo de processamento e quantidade de memória. Mas a espera é retórica. Cartas eletrónicas lá chegar chegaram. São aqueles títulos a negrito, sinal de que não foram lidas, provavelmente cartas das "novidades" comerciais, a anunciar fabulosas oportunidades. Morreu a espera porque exagerou a superabundância. Estar ligado já não é virtude, é vício.

Tenho saudade de extrair a vapor de água os selos das minhas cartas na noite da cozinha ao fundo do imenso corredor que dava do meu quarto em cujas janelas olhava as estrelas longínquas e por onde fui formando, caminhando sempre mais um passinho curto na noite profunda, uma ideia do infinito.

7 Comentários:

At 02/08/11, 18:50, Blogger Graça C. Santos comentou...

Havia lá coisa mais comovente que receber uma carta de um amigo ou familiar por correio...?! Era sempre um momento solene. Abrir a caixa, tirar o envelope, olhar o remetente, apreciar o selo. Perdeu-se um ritual que exigia o trabalho dos cinco sentidos, às vezes dos seis ou dos sete. Tenho pena embora de vez em quando ainda vá recebendo uns postais ilustrados de alguns amigos que não perderam essa vontade de, quando andam por fora, enviarem umas palavrinhas via CTT.
Gostei muito desta tua evocação.

 
At 03/08/11, 16:06, Blogger Justine comentou...

Acompanho-te na saudade de tempos que já morreram há muito!

 
At 09/08/11, 15:03, Blogger Licínia Quitério comentou...

Sim, mudaram muito os tempos. Mudámos nós com eles, mas talvez não tanto assim. Ainda dou por mim toda contente quando chega aquele e-mail inesperado ou a resposta aguardada ao outro que enviei. Por outro lado, quando recebo uma carta que não seja de um organismo oficial ou de uma qualquer empresa, fico admirada, a mirar e remirar, antes de abrir. Gosto, mas depois tenho uma preguiça enorme de responder pela mesma via. Perdi automatismos, foi o que foi. Ganhei outros. Sou assim.
Ah gostei de ler o teu texto. Há muito o Tremontelo não dava notícias. Vou descolar o selo ao vapor e guardá-lo :)

 
At 23/08/11, 22:18, Blogger bettips comentou...

Nostalgias
de papel.
Sim!
Continuam a nadar papeis à minha frente, blocos muitos, re e começados.
Mas temos de nos render (um pouco) às evidências dos dias: hoje, por ex.,soube logo 4m depois do estremecimento em Boston (e arredores).
E há aquela coisa de uma borboleta bater as asas aqui ou ali. Graças se darão ainda, quem tem ervas e tremontelos.
Ah e eu ainda escrevo inesperados postais.
Bjinho
Abçs

 
At 09/09/11, 19:13, Blogger Alien8 comentou...

Caro Rui,

Espero que esta minha carta te vá encontrar de boa saúde, assim como aos teus.

Tendo acabado de ler a tua em forma de poste, com certeza poste de iluminação, ocorre-me dizer que eu, por cá, ainda recebo algumas cartas, e nem todas são coisas com números ou missivas comerciais ou até folhetos convidativos.

Em todo o caso, as coisas já não são o que eram. Os carteiros vêm de mota e nunca a horas certas, desapareceram aqueles envelopes tão lindos com as margens coloridas que serviam para correio aéreo, as cores agora foram para o correio verde e o correio azul, que em calhando não são mais que correio normalíssimo, já tudo é auto-colante, nem dá para lamber a cola dos envelopes, enfim, uma desgraça. Olha, que Nossa Senhora das Estampilhas nos proteja!

A família manda recomendações. Aceita um abraço do amigo de sempre,

Alien8

 
At 15/09/11, 16:50, Blogger Rosa dos Ventos comentou...

Vim à procura da Patanisca porque num post muito antigo encontrei-a e ela reenviou-me para aqui! :-))

Abraço

 
At 15/11/11, 11:22, Blogger Teresa Durães comentou...

Venho de novo convidar-te. Está no meu blog!

 

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