1 de dezembro de 2010

Quadros (5) revisto umas horas depois.

Em ziguezague semi-acrobático, mas completamente profissional, a pomba desceu dos céus e foi poisar no ombro da boneca de trapos. A pomba, ao contrário de Laqui-Laque, o cowboy solitário, não trazia o habitual raminho de oliveira com que palitava o bico como era seu hábito (posto que tivesse hábitos!). O gato teceu o seguinte comentário, rezando entredentes para os seus botões (suposto que os tivesse): " A puta da pomba é danada para a brincadeira, aquilo deve andar com ideias!", mas desentralaçou os dentes logo de seguida, e deixou descair sobre o focinho aquele esgar risonho que utiliza no perfil da sua rede social. Também olhou arreceado para a gata não fosse aquela ouvir os seus pensamentos. E rodou o botão sintonizador para um nível mais baixo de pensamento. Tinha que encerrar-se no interior de uma larguíssima muralha de betão armado para proteger-se das incursões que a gata fazia aos seus lugares de privacidade.
[Os velhos discutiam qualquer coisa sobre se as espadas eram sabres ou floretes e mandaram vir mais um cântaro de vinhaça].
O ouriço quase ia pisando o caracol que descansava das suas loucas correrias. Porque é que o caracol não se ia deitar à sombra da longa fila de tortulhos que tinham nascido ali aos molhos como auto-estradas? A chuva miudinha e o tempo encoberto tinham-nos trazido para ali e ninguém sabia se eram comestíveis ou venenosos, embora, nos tempos que corriam, quase tudo o que fosse comestível seria, certamente, venenoso. A pomba não deixava de sussurrar palavras venenosas aos ouvidos da boneca pensando que assim a levaria ao castigo. [Os velhos continuaram a bater as cartas sobre o tampo de madeira da mesa, acompanhando o pulsar do tempo].
A boneca continuou a ler o jornal do dia na parte onde se lia, na primeira página, " Hemoglobin-induced oxidative stress contributes to matrix metalloproteinase activation and blood–brain barrier dysfunction in vivo" e viu que era bom. Um artigo é sempre bom sempre que o leitor predica a sua bondade. Também há aqueles que nós consideramos poéticos porque, uma vez ditos, reconhecemos neles uma certa musicalidade. E a musicalidade é aquela propriedade que se assemelha aos ritmos cardíacos que nos estimulam os cérebros de quando somos fetos, provavelmente os que provêm daqueles seres a que chamamos mães. A boneca pensava nestas coisas mesmo sem nunca ter tido uma mãe. A mãe é uma categoria apriori da existência sobre a qual nada se pode decidir sem primeiro nos desembaraçarmos do problema de quem apareceu primeiro, se o ovo, se a galinha. E a boneca ouviu qualquer coisa que lhe recordava Amstrong e pareceu-lhe bem. [A um dos velhos a dama de paus recordou-lhe a Celeste Rodrigues e deu-lhe para começar a cantar fado].

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1 Comentários:

At 04/01/11, 14:55, Blogger Idun, a felina comentou...

o pombo era malandro, mas de malandragem circunscrita ao pensamento; tivesse havido actos e ainda se havia de vir a festejar o baptizado de um nenuco...

 

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