23 de fevereiro de 2010

As janelas

Depois de uma volta por Santarém, chego a casa, arrumo o carro e passo pelo estendal a apanhar a roupa que deixara a enxugar o dia todo. Fizera um imenso vendaval e ela estava tesa como bacalhau. Estou ainda a abrir a porta de casa, e a tirar meticulosamente as botas pesadas da lama, quando desaba uma forte e ríspida chuvada. Os deuses estão comigo, comentei em circunlóquio. Ou, o que vai dar no mesmo, em redondo solilóquio. A Ratita, a dois passos atrás de mim, abanava a cabeça parecendo dizer que sim. Que não, sacudia era a chuva, hóspede malquisto que se lhe agasalhara no pelo. Já de pantufas, acudo à cozinha, doido pela música, não da rádio, que traiçoeiramente também dá notícias e comentários de política doméstica, mas da ruidosa chaleira eléctrica.

Agora estou sentado na mesa grande do escritório no mezaninho tentando conquistar pedaços de tampo aos perfilados livros que em progressão compacta avançam sobre a minha figura simulando intuitos bélicos. São cinco horas. E o tempo que se afigura acima da minha janela de telhado escureceu. Ocorre-me como, por hábito apenas, fruímos da claridade sem lhe prestar atenção. Como às pessoas que anonimamente nos confortam com a sua presença e que só um dia o descobriremos com mágoa e raiva.

A chuvada regressou novamente tombando sem aviso sobre a janela de telhado basculante-oscilatória que estava semi-aberta. Algumas gotas, visivelmente mais excitadas, carambolavam no pinho com verniz acrílico parecendo querer desenhar as marcas de um mítico zorro meteorológico.

À esquerda da mesa, e um pouco atrás de mim ladeando a vasta enseada onde encalho a cadeira de escritório com rodas, amontoa-se em pirâmide irregular a artilharia ligeira a afinar a pontaria de tiro à peça. São, sobretudo, encadernados com lombadas de amarelo-pálido da velhice, obtidos por herança de parentes passados ou arrancados à clausura do alfarrabista.

Bebo o meu chá de ervas rústicas com a gravidade e a sábia ponderação de um mestre escanção. Com uma mirada oblíqua estudo a infantaria que avança alinhada em posição paralelo-frontal. Têm todos o ar jovem de que foi recrutado a molhe e há pouco tempo, imberbes e mal amadurecidos para tombar hoje ou amanhã e ir parar à vala comum das estantes da parede.

À direita, ao alcance de uma mão, rufa sozinho um pequeno e nédio tambor. Volto-o, como se lhe desse um piparote com o indicador, e leio-lhe o que traz estampado no rosto: "The Wordsworth Dictionary of the Underworld". Na lapela traz a seguinte inscrição: "A celebrated 'inside job' on the language of crooks, criminals beggars and tramps". E, à laia de insígnia, cobre-se de uma ilustração que se intitula "A Fight outside a Tavern" e diz ser de Joos van Craesbeek (c.1605-1662). Percorro o seu interior, lendo cada entrada como as lápides de um cemitério. Pouco ou nada fala de fruta ou de amores travessos dos erotómanos mediterrânicos; todo ele é dedicado à pancada da pederastia, da bebedeira e da gatunagem dos súbditos de Sua Majestade.

Deixo cair algumas gotas de chá ainda fervente no tampo branco da longa mesa de secretária do IKEA. A infantaria retrocede alguns passos como que a deixar passar uma língua incandescida de napalm. Na rectaguarda e nos flancos, a cavalaria aguarda com pose premeditada e galharda: são obras volumosas de arquitectura medieval; traduções para francês de filósofos contemporâneos; histórias de egípcios, hititas, tartéssios e lusitanos em cronológica desorganização; a clássica edição em três tomos das Obras Escolhidas , em português e de 1973, do Grande Timoneiro empalada pelo Como conhecer o seu verdadeiro eu, de Sua Santidade o Dalai Lama. De resto, há poesia pessoana, orto e heteronómica, dois livros de Hannah Arendt, um de fotografia digital, um Atlas político do tempo em que havia União Soviética e alguns álbuns de Milo Manara.

Fecho a janela de telhado e vejo o chá com o rosto marcado pelo aborrecimento e pelo frio a fitar-me directa e insistentemente nos olhos.

A artilharia pesada posicionou-se à distância, no prolongamento da direita da mesa branca de tampo vasto. Distingue-se, no posto avançado, o enorme Musil com o título que eu chamo de O homem sem leitores.

Olho a janela a Sul. Está uma luz electrizante que realça o branco virgem das casas dos vizinhos. Coloco a teleobjectiva na câmara, aponto e disparo vezes seguidas.

Verifico com enfado que tenho uma pilha de cartas por abrir.

Da janela de telhado o tempo afigura-se negro de mortalha: vem anunciar que o dia morreu.

5 Comentários:

At 24/02/10, 09:40, Blogger magix comentou...

Gostei, sim senhora. Do homem sem leitores, dos objectos que falam com o homem, do dia que se desvanece, da luz que ainda entra pela janela, do silêncio da chaleira e dos gatos.
Quero mais.

 
At 24/02/10, 11:52, Blogger Justine comentou...

Oh homem cheio de qualidades,a tua escrita de excelente qualidade, cinematográfica que só me remete para os filmes de Ingmar Bergman,cheínha de imagens irónicas e imaginativas, encaminha-me frase a frase pelos recantos da tua Pasárgada. Confortavelmente, apesar do tempo...

 
At 26/02/10, 19:32, Blogger Teresa Durães comentou...

e o tremontelo está a funcionar???? Desde quando? Andaste fugido! E dou com o teu irmão, que pensava que eras tu, no facebook.

(valha-me deus estas confusões de irmãos!)

Pronto, vou colocar o link de novo

 
At 27/02/10, 21:09, Blogger Licínia Quitério comentou...

Muito bem dita esta cena intra-muros, com chuva lá fora, chá reconfortante, a bateria ameaçadora de livros e o Homem Cheio de Qualidades mesmo ali à mão de folhear.
Gostei. Ponto. Pronto.

 
At 01/03/10, 18:19, Blogger legivel comentou...

Após tão épica batalha ocorre-me perguntar "saiste ileso do fogo de peça dos encadernados?. E do avanço da cavalaria das obras pesadas nem vestígios de uma patada de um equídeo mal-humorado? És um homem de sorte, e pelos vistos com alguns conhecimentos de guerilha. Que essa de apontares a teleobjectiva e disparares sobre a casa dos vizinhos. outro nome não se lhe pode dar..."

 

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