Novo contributo: a equipa cresce
No tempo da canícula o espírito ferve, a alma destila e o corpo derrete-se: quem há-de, pois, trabalhar com tino? Trabalho? Só pensar nesse não é pouco desatino e a mente esmorece. É um fado, é um lamento da saudade da Primavera em flor que em fruto pesadamente maduro transformou o destino.
Gostaria de ter as coisas mais bem organizadas: aqui, no Tremontelo, tenho um pouco de tudo. Continuei ali, no Sítio, no Lugar, na Estória, a escrevinhar umas pilhérias... mas cheira-me tudo a desorganização de monta. Um pouco escondidas, dão em esquecidas. Nenhum leitor para comentar, para dizer o que dizem os comentadores, nem que seja como a dona Tela, que mudou de perfil, mudou de paradigma, mudou de penteado, ou de cenário ou de gato, melhor fora mudasse de camisola azul que de entalada virou gasta.
No tempo da canícula o corpo derrete-se, a alma destila e o espírito febre: febrilmente fébrido o espírito não cala, não consente. O humor é gélido, e a carne fraca desgordura-se em biocombustível, pão que sai da boca do pobre para enriquecer a mistura do carburador. Nosso Senhor que andou numa terra santa já não sabe se é judeu ou palestino. Isto não tem nada a ver com ele, comigo ou contigo: é pura obra cega do destino!
Bem jeito me dava o bom de Gervásio, mas desde que a senhora que sabemos lhe deu volta ao miolo e o pôs num desatino, bom era vê-lo, que só se vê a figura desengonçada do mastronço num virote, ai agora não me dá jeito que vou ao Porto, e tenho que ir à Régua a ver se fecho um contrato para um evento neste Verão, e outras evasivas que tais, e eu não vejo contratos nem gervásios, que, caso existam, carecem de ser comprovados pela demonstração ontológica da sua existência.
No tempo da canícula abre-se o poro da pele que destila a sua essência.
Vi-me assim compelido a aceitar a proposta da
Patanisca Sardenta, a "résolument très sensuelle et très féminine" sobrinha do Gervásio que já, há tempos consideráveis, me andava a aliciar, entre outras coisas, para participar no blogue. Insistência não falta à lambisgóia, que tem os mesmo dotes obsessivos da arrumação do tio. Vem portanto trabalhar connosco, melhor comigo, que o tio, esse deve a andar na apanha do vinho do Porto. E para quem pense que eu não percebo de vindimas que estou deslocado no tempo, devo esclarecer que se tratam de outras vindimas e de outras castas. "Para lá do Douro - adaptando à cultura financeira socrática - mandam os do Tesouro"!
Etiquetas: gervásio, patanisca, perdido
O que é perdido?
Indo ver aos livros...
Do meu dicionário de português que, por sinal, até é baratucho:
Perdido (Lat. perditu). adj. Disperso; sumido; extraviado; naufragado; (Fig.) apaixonado em extremo; devasso; louco;corrupto; gasto em vão; esquecido; que não escapará (duma doença); s. m. coisa que se perdeu; pessoa corrompida, desgraçada.
A primeira lição que podemos tirar da leitura de um dicionário é que ele raras vezes nos é de alguma ajuda. É certo que em alguns contextos podemos dizer de alguem que ela é uma mulher "perdida". Entende-se logo que falamos de uma pessoa com má reputação, cuja conduta se manifesta de algum modo reprovável, que anda na "má vida". Aplica-se-lhe a significação de "devassa" ou a de "pessoa desgraçada". Há as oportunidades "perdidas" que são aquelas que passaram por nós e não as agarrámos. Coisas "perdidas" são aquelas a quem se lhes deu sumiço. Se ele tem uma doença terminal, então ele está "perdido". Está de cabeça "perdida" quando lhe deu uma qualquer maluqueira. Diz-se que uma pessoa está "perdida" nos seus raciocínios quando atinge um estado de tal falta de concentração e de ausência de objectivos que não é capaz de retornar a uma linha de raciocínio clara. Consoante os motivos, ela estará "extraviada" ou meramente "esquecida".
Está tudo muito bem, mas nada disto explica o sentido porque alguem se apelida, ou é apelidado, de "perdido". E, se o queremos saber, teremos que interrogar a pessoa que assim inicializou o uso da palavra nesse contexto numa acepção que não é permitida pelo dicionário.
Um véu já se tinha levantado sobre o assunto...
No meu blog de 14 de Fevereiro digo que "Em todas as histórias há uma criança que se perde (errare humanum est!). E nessas histórias erráticas é, geralmente, na floresta que as crianças se dão conta de estarem perdidas."
Por experiência e conhecimento acumulado, sei que cerca dos 4-5 anos todas as crianças se perdem, consistindo isso em afastar-se dos pais a tal ponto que, ou os pais perdem horas aflitos à sua procura, ou as próprias crianças sentem que perderam os referenciais e experimentam algumas dificuldades de conseguir o regresso para junto dos pais. Isto foi-me assegurado por diversos pais em consulta de psicologia infantil, assisti ou foram-me testemunhadas diversas situações de crianças perdidas na praia e até me recordo de uma situação em que estive pessoalmente envolvido, pois bem me recordo desse dia.
Seria de manhã, pois ainda não tinha almoçado. Decidi, eu e o meu amigo, que por certo andaria na minha faixa de idade, irmos conversando em passeio. O meu mundo era "a rua", uma pequena tira de estrada à frente do meu prédio limitada pelos cruzamentos com a rua 1 e a 2, assim se chamavam na altura. Dominava esse mundo tão bem como o mundo lá de casa do qual era uma extensão. Mas havia muito mundo ainda por explorar e eu estava confiante de que era capaz de o defrontar bastando, para tal, que o fizesse acompanhado por alguem que tivesse a mesma experiência e grau de confiança que as minhas, e não mais, para que de algum modo não apoucasse a façanha que eu me preparava para fazer. Conversando lá fomos, e a conversa entreteu-nos a um ponto que nem démos pelo passar do tempo nem pelo que se passava à nossa volta. Enquanto o tempo não passava pelas nossas cabeças, o passar do tempo moía as cabeças dos nossos pais. Bem procuraram eles por todos os lados. Percorreram muitos quilómetros.
Até que, finalmente, nos encontraram, "na boínha", como se diria hoje; e nós meio aparvalhados com tanta excitação nos adultos. Seriam cerca das três da tarde. Mas nós ainda não sabíamos nada disso das horas e dos relógios.
O que há que pensar de tudo isto?...
Voltemos à questão: porque é que as crianças se perdem? Para investigar esta questão procurei identificar um conjunto de proposições de que, após escrutínio mental, se possa afirmar sem sombra de dúvida (que cartesiano!) que são verdadeiras... ou, convenhamos, que tenham grandes probabilidades de sê-lo.
"As crianças perdem-se como resultado ...
1. do seu desenvolvimento cognitivo e emocional
2. do seu desenvolvimento motor
3. de uma excitação que os leva a procurar o risco
4. de uma ruptura gradual com o casulo protector da infância"
Vejamos cada uma de per se:
1. detendo uma maior capacidade para abarcar e processar informação, e sendo também capazes de mobilizar conhecimentos adequados, aumenta a auto-confiança e são compelidos pela curiosidade a explorar o meio envolvente.
2. as novas capacidades motoras, mormente na área da locomoção, não sincronizam as antigas capacidades de mapeamento espacial. A noção de tempo não integrada também não ajuda...
3. confrontar os medos, os fantasmas, o desconhecido gera uma excitação que leva a criança a defrontar cautelosamente o risco. Porém, a noção do risco não é ainda muito realista, levando a criança a arriscar mais do que imagina.
4. as necessidades de protecção e de autonomia procuram equilibrar-se num jogo de forças antagónico. Quando a criança força a autonomia, a necessidade de protecção sofre um abalo temporário.
Que vem então a ser "perdido"?...
Que as crianças se percam, tudo bem. É aquilo que se espera como episódico na fase de transição da pequena infância para a infância posterior. Que um adulto se perca, põe outras questões: um adulto já de algum modo estabilizou no seu desenvolvimento intelectual e motor; um adulto faz depender toda a excitação de actividades focalizadas como a carreira, a obtenção de riqueza ou de poder, o status e o reconhecimento social; a protecção e autonomia estão bem balanceadas num adulto por detrás das máscaras sociais.
Para mim, "perder-me" tem um sentido único: só é possível perdermo-nos no interior da floresta.
Um velho hábito leva-nos a distinguir metaforicamente entre a floresta e as árvores, como símbolos do colectivo e do individual, respectivamente - um todo não é uma colagem de partes singulares, um borrão não é um amontoado de riscos e de manchas, uma equipa não é um agregado de indivíduos.
Mas a metáfora é utilizada para realçar a utilidade e a beleza de abarcar a totalidade, a totalidade captada do seu exterior e contida na nossa compreensão. "O todo captado" diz-se em latim " conceptum", o conceito. Ver a floresta é conceber no sentido de "abarcar o todo". E sempre que vemos atentamente o todo, encontramo-nos, ou seja sabemos que não estamos perdidos.
Todavia, quando penetramos a floresta, perdemo-nos. Porque os caminhos da floresta, os caminhos de pé posto, estão lá para serem cruzados, não levam a parte nenhuma. Se passeamos na floresta, tanto vale seguir num sentido como no sentido contrário. O objectivo do nosso passeio não é convergir para um ponto preciso, dentro ou fora da floresta; é vaguear, é errar, é perdermo-nos. O objectivo é a acção, a agitação. "A totalidade do que é agitado" diz-se em latim "cogitatio", o pensamento.
O conceito fecha em si próprio aquilo que o pensamento abre.
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