Perdido no deserto
Sobrevoámos as dunas de Ubari em direcção a Sebha. O grande mar de Areia banhado ainda pelo Sol, que se refugiava para além da fronteira imaginária da Argélia, refulgia numa cor acobreada, variando tonalidades de fogo vivo, passando pelo âmbar e açafrão, ao vermelho laranja, a contrastarem com o negro absoluta das sombras projectadas a leste pela enormes dunas e elevações graníticas. Lá em cima avistávamos durante tempos os lagos na região deserta de Fezzan e Jebel Akakus recortados pela densa vegetação das palmeiras e do capim seco e os megalíticos qarsr em adobe. Pernoitámos num hotel em Sebha com vista para um jardim circular desenhado em torno de um belo lago.
Estivémos sempre acompanhados pela enfermeira, uma mulher na idade indefinida da juventude, de tez escura e olhos profundos como o mar que destilavam um azul indigo da cor do vestuário por que são conhecidos os tuaregues. Usava a cara nua, como é costume nas mulheres do seu povo, um rosto oval, finamente desenhado. Não só pelo aspecto visual, pela graça no andar, pelas maos finas e oblongas, que parecia estarem sempre a evoluir em dança oriental, não só por isso o olhar irresistia. A pele exalava o perfume do pó do sândalo branco que se impunha como uma presença pregnante e avassaladora. Perdido quis jantar na esplanada. Pouco comeu, a olhar sempre com o olhar parado e fixado no pequeno lago artificial.
A viagem de Sebha para Tripoli, e o regresso a Lisboa foram calmos, com Perdido sempre a dormir, o que me deu a oportunidade de reler e treler os seus escritos do deserto. Em Lisboa, internámos Perdido no Hospital de Santa Maria onde esteve cerca de mês e meio internado. O seu estado de saúde, a princípio, inspirou cuidados, mas passados cerca de 30 dias o seu estado de humor melhorou bastante. Dava gosto vê-lo de novo no seu gozo cerrado de sarcasmo inteligente, ou o corte diamantino da sua ironia, ouvir as suas gargalhadas estrídulas ou deixarmo-nos levar pelo seu largo sorriso em que mostrava o esmalte lustroso dos dentes que lhe restavam.
No meio do discurso ininterrupto e encavalitado largava, de vez em quando, uma ou outr palavra em tamasheq.
Ver outro post relacionado (o regresso de Perdido).
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O deserto
Para dentro e para fora do olhar, para onde quer que eu olhe, o deserto é a rarificação da vida: exiguidade de substância viva e escassez de meios de sobrevivência. Na alma também há desertos, quando os seus habitantes morrem e se instala um clima de secura.
Porquê, pois, a atracção do deserto? Porquê a necessidade desse esvaziamento, da formação desse vácuo, da irrupção desses silêncios, do afundamento dos horizontes?
A vida habitual faz-se entre objectos. Habitual, digo bem, porque o hábito faz o monge. E esse hábito de objectos (essa vestimenta tecida de objectos com que me cubro para ocultar do outro a nudez do eu) faz-me monge (“monachós”, solitário).
Mas não é o deserto o espaço monacal por excelência? Porquê trocar o hábito dos objectos pelo hábito do não objecto? Pelo hábito do não objecto, ou pelo hábito da ausência do objecto?
A natureza em geral é o espaço do não objecto. Pega-me pela mão, vem ao meu jardim, vem à minha floresta conhecer esta comunhão de inter-subjectividades: o coelho, a perdiz, os insectos, as flores, as ervas, as silvas, o arvoredo. Este é um mundo dos não objectos, por onde espreitam os silfos, as fadas e os duendes, seres de entre dois mundos, rabinos, brincalhões, travessos. É um mundo sem objectos: ou onde, porém, os objectos se sentem mal.

Na ausência do objecto sente-se o seu oco, a vacuidade deixada pelo seu retiramento. Em dias de muito trânsito e em locais de destino muito apetecido, percorremos os lugares num vai-vém desenfreado para encontrar um lugar onde estacionar. O que é um lugar para estacionar? precisamente o oco deixado pelo outro veículo. Assim é o mundo da ausência do objecto: um mundo em que o oco predomina. Desertificar significa a crescente prevalência do oco.
Esse outro mundo sem objectos, o deserto que o monje procura, é um mundo onde a vida quase se esvai e a sobrevivência não é garantida. Que procuras no deserto? No deserto sahariano, nas altas montanhas, nos lagos gelados, na beira do abismo? O esvaziamento de si?
O sol hoje beliscava-me a pele e a tua presença, o espírito. O mar ao longe era esse deserto azul de imagens perpetuamente sobrepostas. Próximo, os rochedos cobertos de líquenes atapetavam de verde a areia da praia. O serviço, e em volta os outros ocupantes da esplanada, nem se notavam. As palavras eram de férias, de lugares de que se gosta, de partidas para aventuras esboçadas a meias palavras. De pessoas amigas que iam e vinham permanentemente no espaço da memória, na travessia do Atlântico para as terras prodigiosas do Brasil.
O tempo é a matéria de todas as viagens.
Esse outro objecto, fetiche da modernidade, toma conta de si próprio e enfia-se rumo à catedral dos objectos. Tu alertas, sinalizas, e retomamos os descampados, emparedados pela sinalética: “Sassoeiros”, “Carcavelos”, “Marginal”. A viagem é um piano onde tu treinas a voz aveludada da tua sensibilidade.
O tempo é de voltar, porque depois o tempo é comprimido, empacotado nesse objecto abjecto de gerir tempo, a reunião. É o tempo do adeus, do até ver, da saudade anunciada.
O tempo esvazia-se de tempo. O deserto nasce.
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